José Trindade Coelho (1861-1908)

Trindade Coelho Trindade Coelho Escritor. Natural de Mogadouro, a sua obra reflecte a infância passada em Trás-os-Montes, num ambiente tradicionalista que ele fielmente retracta, embora sem intuitos moralizantes.

O seu estilo natural, a simplicidade e candura de alguns dos seus personagens, fazem de Trindade Coelho um dos mestres do conto rústico português. Fiel a um ideário republicano, dedicou-se a uma intensa actividade pedagógica, na senda de João de Deus, tentando elucidar democraticamente o cidadão português.

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De seu nome completo José Francisco Trindade Coelho, nasceu em Mogadouro, em 18.6.1861. Aí fez os primeiros estudos, nomeadamente na área de Latim, com o apoio de dois padres.  Daqui seguiu para o Porto, onde fez em colégio, os estudos secundários.  A terceira etapa era Coimbra, onde concluiu o curso de Direito.  Embora os pais fossem ricos (a Mãe morreu ainda ele era jovem) a verdade é que ele chumbou no 1.' ano do curso de Coimbra e o Pai cortou-lhe a mesada, pelo que Trindade Coelho teve que arranjar forma de ultrapassar as dificuldades.  Começou a dar explicações e a escrever em jornais.  Entretanto casou e apareceu um filho, facto que mais complicou a sua vida, enquanto estudante.  Chegou a ter um esgotamento.  E ele próprio escreveria do ambiente Coimbrão: "aquela vida em que estive metido e que nunca se deu comigo nem eu com ela, mas em que nunca me dei razão porque lha atribuía a ela e a mim uma inferioridade que mais pesava por ser sincera".  Nesse período escrevia nos jornais com o pseudónimo de Belistírio.  Também fundou, nessa época, duas publicações: Porta Férrea e Panorama Contemporâneo.  Após a conclusão do curso permaneceu em Coimbra, como advogado.  Mas a clientela era pouca e ele enveredou pela carreira administrativa.  Ingressa na magistratura e é colocado como Delegado do Procurador Régio, na comarca de Sabugal.  Sabe-se que para obter esse lugar, foi precisa a «cunha» de Camilo Castelo Branco, que admirava, literariamente Trindade Coelho.  Sabe-se que valeu a pena porque foi Trindade Coelho um magistrado de elevadíssima craveira moral.  Foi depois transferido para a comarca de Portalegre.  Aí fundou dois jornais: Gazeta de Portalegre e Comércio de Portalegre.  Entretanto granjeara fama e os políticos da época quiseram fazer dele um deputado.  Como não podia candidatar-se pelo círculo onde trabalhava, foi transferido para Ovar.  A última etapa profissional foi Lisboa, onde não teve tarefa fácil por causa do Ultimato Inglês, durante o qual ele teve que fiscalizar a imprensa da capital.  Desgostado com as críticas que lhe faziam transferiu-se para Sintra, em 1895.  Chegou a ir a África (Cabo Verde) defender 33 presos políticos.  Ao fim de 3 meses regressou vitorioso, porque conseguiu libertar os presos, prendendo os acusadores.  Continuou a escrever nos jornais: Portugal, Novidades, Repórter e fundou a Revista Nova, onde publicou os Folhetos para o Povo.  Era um homem inconformado.  Nem a fama de magistrado, nem o prestígio de escritor, nem a felicidade conjugal conseguiam fazer de Trindade Coelho um cidadão feliz. À medida em que avançava no tempo mais se desgostava com a vida, pelo que o desespero o levou ao suicídio em 9.6.1908. Deixou uma obra variada e profunda, distribuída por quatro vertentes.  Jornalismo, carácter jurídico, intervenção cívica e literária.  Além dos órgãos que criou, já citados, colaborou, com os pseudónimos de Belisário e José Coelho, em: O Progressista, o Imparcial, Tirocínio, Beira e Douro. Jornal da Manhã e Ditírio Ilustrado.  Algumas obras: Manual Político do Cidadão Português, o ABC do Povo, o Livro de Leitura.  A série Folhetos para o Povo, onde se incluem, entre outros: Parábola dos Sete Vimes, Rimas à Nossa Terra, Remédio contra a Usura, Laos à Cidade de Bragança, e Cartilha do Povo, A Minha candidatura por Mogadouro.  Como obras literárias deixou: Os Meus Amores (1891) e já inúmeras reedições e In Illo Tempore (livro de memórias de Coimbra-1902).  Em 1961 comemorou-se o primeiro centenário do seu nascimento.  E nessa altura publicou-se um volume: O Senhor Sete, onde se reuniram os seus disperses.  Há também a sua Autobiografia, por ele escrita, em 1902, - dirigida à sua tradutora alemã Louise Ey. Esta autobiografia, quase sempre aparece na parte final da edição de Os meus amores.  
TRINDADE COELHO
E UMA CRÍTICA INEXORÁVEL
por Fernando de Araújo Lima
O escritor Fernando de Araújo Lima vinha, há dias, a sair em defesa de Trindade Coelho, ferido de morte por João Gaspar Simões, ao fazer apreciações à obra do nosso poeta e escritor, natural de Mogadouro, onde foi sempre muito estimado e apreciado.
Fernando de Aarújo Lima serviu-se do "Jornal de Matosinhos", edição de 5 de Março/99, para responder a João Gaspar Simões.
Vamos, pois, conhecer o seu apontamento, que aqui publicamos na íntegra.
«Há quem admire, incondicionalmente, João Gaspar Simões. Eu não. Mas reconheço hoje (pois já atravessei a minha fase de iconoclasta) que ele tinha valor. A sua obra de crítico — a que me interessa neste momento — é vasta e procura ser honesta. Procura. Não digo que o seja sempre. E não me repugna aceitar até que alguns escritores tenham fortes razões de queixa. É natural.
Pois estive a ler, neste meu período de férias, um livro de Gaspar Simões — LITERATURA, LITERATURA, LITERATURA..., há muito na minha posse, mas, que só agora, por circunstâncias inexplicáveis, retirei da estante.
Ora, neste alentado volume, a págs. 143 e seguintes, o nosso crítico desenvolve de tal maneira o tema "Trindade Coelho e a arte do conto", que fiquei surpreendido. O autor dos MEUS AMORES sai, da empresa, muito mal ferido.
Parece-me que João Gaspar Simões não tem razão nos seus juízos, parece-me até que viu o caso, assestando a lupa por alto ou por baixo.
Nunca para a imagem. Acontece, às vezes.
Começa por escrever: "Celebrou-se, em Junho último (o artigo é de 1961), o centenário do nascimento de um escritor cuja glória ultrapassa, de muito, os seus verdadeiros méritos de artista".
Esta afirmação terminante, trocada por miúdos, quer dizer: a glória de Trindade Coelho não é justa, porque os méritos do artista ficam aquém da realidade.
E continua, animado pelo balanço: "...enquanto um Rodrigo Paganino, como ele narrador de sentimentos cândidos, se afunda numa obscuridade por assim dizer total, ou um Fialho, mestre da arte de contar em que o contista de OS MEUS AMORES se celebrizou, perde inteiramente os seus méritos, ele, autor de um único livro de ficção, continua a ser lido e admirado".
Paremos aqui.
Rodrigo Paganino, com os seus CONTOS DO TlO JOAQUIM, dá-nos, sem dúvida, páginas lavadas, curiosas, típicas. Mas, valha-nos Deus! Paganino, não possuía o talento, o poder de comunicabilidade, a graça, a leveza, o fermento humano que encontramos n’OS MEUS AMORES.
Quanto a Fialho. Fialho, grande contista, é uma antítese de Trindade Coelho. Onde este nos oferece simplicidade, bom gosto, tons claros, sorrisos enternecidos, o artista da CIDADE DO VÍCIO oferece-nos força, drama, revoltas, morbidez, realismo fundo, através dum estilo rico, vascular, másculo, não raramente extravagante.
Se Trindade Coelho, autor apenas de um livro de ficção (o que tanto parece afligir Gaspar Simões), conseguiu chegar aos nossos dias, alguma razão existe.
Mais abaixo, a propósito do conto "Abyssus Abyssum", Gaspar Simões afiança que ele ilustra a sua tese. A tese é esta: "Trindade Coelho propõe-se contar histórias inteirado do que mais agrada a certa primitiva mentalidade portuguesa e (...) "consegue levar a água ao seu moInho sem sobressaltar o leitor nem o apoquentar com pormenores que apenas serviriam para enfraquecer os propósitos em vista". E depois de descarnar o "Abyssus Abyssum" e de ajustar os ossos à sua interrogação, afirma, de cátedra que a popularidade e a fama (de Trindade Coelho) "tem de procurar-se ao mesmo tempo na insipiência de uma arte de contar que utiliza processos mais arcaicos que modernos e na mentalidade do leitor muito mais predisposto para se emocionar com histórias à medida da sua própria ingenuidade, que ao nível de uma consciência adulta".
E termina desta forma divertida: "Trindade Coelho é, de facto, um escritor predestinado para a glória num país onde a grande maioria dos leitores não ultrapassou ainda a mentalidade infantil".
Está bem de ver que a mentalidade de Gaspar Simões pertence à pequena minoria, em oposição à grande maioria (os de mentalidade infantil) a que pertenceu, por exemplo, uma Carolina Michaellis de Vasconcelos.
Não há dúvida, Gaspar Simões é um caçador de ideias originais. E desfere, para o conseguir, tiros a eito. Acontece, porém, que, em lugar de ideias originais, caça, por vezes, disparates.
Pois bem, seria a altura de eu revelar, a Gaspar Simões, a razão por que Trindade Coelho "continua a ser lido e admirado".
A perpetuidade de Trindade Coelho está menos na escolha dos temas do que na forma terra-a-terra tão genuína, tão natural, tão dirigida aos corações, como eles são tratados.
Nós lemos e relemos OS MEUS AMORES, e sentimo-los. Tudo aqui é sempre tão novo, tão nosso, tão português, que tem de ser lido e relido com os olhos da sensibilidade.
Trindade Coelho não era um literato, era um homem que escrevia com o calor da sua alma. Ele o disse: "Eu não sei escrever a frio, não escrevo por querer escrever; e até quando caio nessa tolice, rasgo tudo quanto faço. Eu escrevo do pescoço para baixo. O assunto para mim há-de ser uma emoção. Se Ihe dou tempo de se converter em ideia, arrefece e não dá nada".
Ora aqui têm a vivência de Trindade Coelho.»
Em defesa de Trindade Coelho saiu também, um dia, Antero de Quental, ao comentar "Os meus Amores":
Fino, puro, original: agradou-me a mim, que sou um velho e tristinho filósofo, e agradou a uma jovem senhora que tem toda a sua filosofia no seu bom coração e no seu dom natural. Reunir assim votos tão extremos parece-me uma boa prova do valor dum livro. E, depois, está-se tornando tão raro hoje encontrarem-se a seguir 200 páginas que sejam sãs em todo o sentido!
Antero de Quental
E os editores de "In Illo Tempore" escrevem igualmente sobre a capacidade de Trindade Coelho:
"Eis um livro sempre moço! Dir-se-ia que o ciclo de mocidade que ele evoca o impregnou de juventude perene.
Entre todos os livros em que a Coimbra lendária e académica é evocada, este é o livro clássico — depois do "Palito Métrico". Nunca o admirável prosador de "Os Meus Amores", que Fialho de Almeida saudou, foi, como aqui, comunicativo na sua forma tão pessoal; nunca Trindade Coelho conversou melhor com o seu leitor".

Os editores
Publicado no Jornal Mensageiro de Bragança - 19.03.99


Os Meus Amores, 1871
In Illo Tempore, 1802
Manual Político do Cidadão Português, 1906

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